É o fim da loja física? CDL Campo Grande rebate mito digital e aponta riscos reais do endividamento para o varejo

O discurso de que o comércio online estaria “engolindo” as lojas físicas ganhou força nos últimos anos, impulsionado pela digitalização e pelas transformações nos hábitos de consumo. No entanto, segundo o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Campo Grande (CDL-CG), Adelaido Figueiredo, essa ideia não encontra respaldo nos dados e pode esconder um problema mais profundo: a fragilidade econômica que atinge consumidores e empresas em todo o Brasil.

“Tem se falado muito que o mercado físico está acabando e que todos os consumidores estão migrando para o online. Mas os dados mostram exatamente o contrário. O varejo físico continua sendo o coração da economia brasileira”, afirma Adelaido.

O varejo nacional movimentou cerca de R$ 3 trilhões em 2024, somando as vendas físicas e digitais. Desse total, apenas R$ 204 bilhões foram provenientes do comércio online, o que significa que quase R$ 2,8 trilhões ainda circularam nas lojas físicas.

“Esses números estão disponíveis em fontes oficiais, como o IBGE. Ainda assim, tenta-se construir uma narrativa de que o físico acabou. Mas será que isso não é uma forma de mascarar o verdadeiro problema? O país vive uma Selic nas alturas, crédito restrito e um endividamento generalizado, tanto de famílias quanto de empresas. Isso sim está derrubando o varejo”, destaca o presidente da CDL.

Endividamento em alta e reincidência recorde

Dados mais recentes confirmam o alerta. Em setembro de 2025, o Indicador de Reincidência de Pessoas Físicas, apurado pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo SPC Brasil, revelou que 85,5% das negativações registradas no país foram de consumidores reincidentes, ou seja, pessoas que já haviam aparecido nas listas de inadimplentes nos 12 meses anteriores.

A maior parte desses consumidores, 63,3%, ainda não havia quitado pendências antigas quando voltou a ser negativada. Outros 22,1% conseguiram sair do cadastro de devedores, mas retornaram. Apenas 14,5% dos negativados de setembro não tinham restrições anteriores no CPF.

O número de reincidentes cresceu 7,86% em um ano, e o tempo médio entre o vencimento de uma dívida e o surgimento de outra é de apenas 73,9 dias, o equivalente a pouco mais de dois meses.

“A negativação, na maioria das vezes, não é um evento isolado, mas parte de um ciclo recorrente de endividamento. A recuperação das dívidas é lenta e concentrada em valores baixos, o que reforça a dificuldade de reversão desse quadro no curto prazo”, destacou o presidente da CNDL, José César da Costa.

Recuperação de crédito em queda

Além do aumento no número de devedores reincidentes, o Indicador de Recuperação de Crédito de Pessoas Físicas mostrou uma queda de 9,68% no número de consumidores que conseguiram limpar o nome no período de 12 meses encerrado em setembro.

Isso revela que, além de haver mais pessoas se endividando novamente, menos brasileiros estão conseguindo sair das listas de inadimplência, um cenário que restringe o consumo e pressiona o varejo.

O levantamento aponta ainda que a maioria dos consumidores que conseguiram quitar suas dívidas pagou até R$ 500, o que demonstra a dificuldade de recuperação de valores mais altos. O valor médio pago por consumidor recuperado foi de R$ 2.296,54, segundo o SPC Brasil.

“Romper o ciclo exige soluções integradas, produtos financeiros com foco em reabilitação, políticas regulatórias que reduzam armadilhas e programas públicos que devolvam o acesso ao crédito responsável”, afirma o presidente do SPC Brasil, Roque Pellizzaro Júnior.

Crédito caro, consumo em queda

Para o presidente da CDL Campo Grande, esse quadro de endividamento em massa e de crédito caro explica a retração das vendas tanto nas lojas físicas quanto nas plataformas digitais.

“Não é o fim da loja física. É o reflexo de uma economia adoecida. O que precisamos é reagir com qualificação, com atendimento de excelência e com mais estratégia. O varejo físico continua sendo essencial, mas precisa entender o seu público e se adaptar ao novo momento”.

Ele ressalta que o fortalecimento do comércio local passa pela capacitação das equipes e pela reconexão com o cliente. “É hora de investir em qualificação, entender o produto e, principalmente, conhecer o cliente. Não adianta fazer propaganda onde ele não está. O diferencial está na experiência, na escuta e no relacionamento”, conclui.

A CDL Campo Grande destaca que, diante de uma economia em que 43,1% da população adulta está inadimplente, segundo o SPC Brasil, é preciso uma ação coordenada que envolva governo, setor financeiro e entidades de classe para estimular o crédito saudável e reaquecer o consumo.

Djeneffer Cordoba
Assessoria de Imprensa – CDL-CG
Campo Grande – MS, 27 de outubro de 2025

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