A boa ação que pode sair cara para o comércio, e para a economia brasileira
Roupas, perfumes, eletrônicos. Tudo com preços tão baixos que parecem imperdíveis. Os bazares de produtos apreendidos pela Receita Federal sempre atraem filas, embalados por um propósito nobre: reverter recursos para instituições filantrópicas.
Mas, por trás do discurso de solidariedade, há um paradoxo que precisa ser encarado com seriedade, o mesmo produto que ajuda uma causa social pode estar, silenciosamente, destruindo o equilíbrio do mercado formal e enfraquecendo a base que sustenta a própria economia do país.
Em oito anos, os prejuízos provocados pelo mercado ilegal quadruplicaram, saltando de R$ 100 bilhões em 2014 para R$ 410 bilhões em 2022, segundo o Fórum Nacional contra a Pirataria e Ilegalidade (FNCP). Nesse período, o Brasil deixou de arrecadar R$ 129,2 bilhões em impostos, valor que poderia ser aplicado em saúde, educação e programas sociais.
“O problema não é a doação, mas a forma como ela é feita. Quando produtos de origem ilegal voltam a circular no mercado, ainda que com boa intenção, o impacto recai sobre quem faz tudo certo: o empresário que paga impostos, gera empregos e mantém a economia viva”, alerta o presidente da CDL Campo Grande, Adelaido Figueiredo.
O círculo vicioso da ilegalidade
O que deveria ser uma medida excepcional, muitas vezes, acaba virando parte da engrenagem que normaliza o contrabando. Os mesmos produtos que tiram competitividade das lojas formais voltam às ruas com um selo de “legalidade temporária”, e isso envia uma mensagem perigosa: a de que o irregular pode ser tolerado quando tem destino nobre.
E o tamanho do problema é colossal. O FNCP calcula que o setor de vestuário é o mais atingido, com R$ 84 bilhões em perdas, aumento de 40% em relação ao ano anterior. Em seguida vêm as bebidas alcoólicas (R$ 72,2 bilhões) e os combustíveis (R$ 29 bilhões). Setores de cosméticos e higiene pessoal (R$ 21 bilhões) e defensivos agrícolas (R$ 20,8 bilhões) também figuram entre os mais prejudicados.
“Essas perdas não são apenas números, são empregos que deixam de ser criados, empresas que fecham e arrecadação que desaparece. Ao não pagar impostos, o ilegal fica mais barato, e o empresário honesto passa a competir em desvantagem permanente”, afirma Edson Vismona, presidente do FNCP.
O risco invisível nos bazares
A tentação do preço baixo também esconde outro risco: o da segurança do consumidor. Produtos contrabandeados não passam por certificação da Anvisa ou do Inmetro, e muitos chegam aos bazares sem histórico de armazenagem ou garantia de procedência.
“O consumidor acha que está fazendo um bom negócio, mas pode estar levando para casa um produto perigoso, sem garantia e sem rastreabilidade. A economia informal tem consequências que vão muito além do bolso, elas atingem a confiança nas relações de consumo”, explica o presidente.
A contradição institucional
A questão central, segundo a CDL Campo Grande, é que o Estado não pode combater a ilegalidade com instrumentos que a perpetuam. A Receita Federal age corretamente ao apreender produtos de contrabando, mas permitir que esses itens retornem ao mercado, mesmo por vias beneficentes, é um contrassenso econômico.
“É como tentar secar o chão com a torneira aberta”, compara Adelaido. “Enquanto a gente combate o contrabando de um lado, o recoloca em circulação do outro. E quem sofre é o comércio legal, que sustenta o próprio sistema tributário do país.”
O comércio formal responde por mais de 70% dos empregos privados no Brasil. É ele que mantém viva a arrecadação que financia políticas públicas, projetos sociais e o próprio funcionamento do Estado. Permitir que produtos irregulares, ainda que apreendidos, voltem a circular é comprometer a espinha dorsal da economia.
Assessoria de Imprensa – CDL-CG
Campo Grande – MS, 16 de outubro de 2025